segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

OPINIÃO: ARMANDO AVENA - OS DEMÔNIOS DO BRASIL



Ontem, ao ligar o computador para para escrever esta coluna, um pequeno demônio, desses que fazem cabriolas e riem sem parar, começou a mexer nas teclas e, antes que eu pudesse impedi-lo, escreveu na página em branco: "não adianta falar de economia, o país está inteiramente subordinado à política”.  Os demônios são  seres traiçoeiros que fazem a gente dizer o que os outros não querem ouvir, por isso, no mais das vezes, é melhor fazer ouvido de mercador, mas o problema é que o endiabrado parecia cheio de razão.

Esfreguei os olhos para fazê-lo desaparecer, mas ele driblou minha retina e deu seguimento a frase: “enquanto isso a economia está semiparalisada atolada na estagflação e num perigoso processo de indexação que pode comprometer a estabilidade monetária alcançada a duras penas com o advento do Plano Real”. Estagflação é uma diabólica mistura de recessão e inflação e o Brasil vai fechar o ano com uma queda no PIB superior a 3,0%, e com a inflação, medida pelo IPCA, batendo em 10,5% nos últimos 12 meses, mais que dobro do centro da meta e o pior índice desde novembro de 2003. Inexplicavelmente, como se tivesse medo de demônios, a imprensa brasileira, especializada ou não, evita o termo estagflação, sem se dar conta que esse demônio é muito mais difícil de ser exorcizado do que uma recessão qualquer.

O remédio para recessão é simples: o governo reduz os juros e     amplia os gastos públicos para fazer a economia crescer. Mas na estagflação é o oposto,  o governo tem de aumentar os juros para conter a inflação e como isso gera mais recessão, e ele não pode aumentar os gastos, pois está imerso numa crise fiscal sem precedentes, tampouco pode estimular a economia. Em suma: estamos no pior dos mundo. Mas não há crise grande o suficiente que não possa piorar, e nosso demônio está certo ao perceber que, além a inflação, a economia brasileira corre um grave risco de ampliar a já excessiva indexação, que nada mais é do que o repasse automático aos preços dos índices inflacionários.

Esse processo já vem ocorrendo e quando o governo aumenta os preços  administrados, como gasolina e energia elétrica os agentes econômicos repassam o aumento de custos automaticamente assim como, quando a cotação do dólar dispara e os insumos ficam muito mais caros, as empresas se veem obrigadas a repassar o aumento de custo para os preços. Esse é o processo de indexação que já está em curso na economia brasileira e responde por pelo menos metade da inflação brasileira, já que a outra metade registra os próprios aumentos da gasolina, energia e dos alimentos.

O pior, diabolicamente pior, é que esse processo de indexação ameaça se alastrar, e, naturalmente, será repassado nas negociações salariais, especialmente nos setores mais fortes, sindicalizados, e daí para que se estenda aos aluguéis e todos os preços da economia será um passo. E assim o único dique que ainda segura a lama da indexação é a taxa de juros mais alta do planeta. Não se pode negar que o Ministro Joaquim Levy tenta desesperadamente remar contra essa maré e esta semana propôs a Presidente Dilma Rousseff que aproveitasse a sua luta contra o processo de impeachment para levar ao Congresso uma agenda de medidas econômicas para tentar aprofundar o ajuste fiscal. Infelizmente, isso já não é possível num momento em que a legitimidade do governo está escorrendo pelo ralo, com uma base aliada que sequer garante a permanência da Presidente no cargo.

Neste enredo melancólico, regido pelos demônios da indexação e da estagflação, só resta a atual equipe econômica administrar os cacos de um projeto econômico que já não serve para o Brasil. E é aí que ouço novamente o risinho do pequeno demônio a dizer que neste momento não há o que fazer, que a economia brasileira está em compasso de espera, inteiramente subordinada ao processo político.

Novamente o insuportável demônio está com a razão, afinal, frente a tamanha incerteza, ninguém tem ânimo para investir ou consumir, e os agentes econômicos lutam apenas para sobreviver, com os empresários tentando não fechar suas empresas e os trabalhadores tentando não perder seus empregos. Mas tranquilize-se o leitor, como diria Baudelaire, “o demônio arde em vão”, e não tem porte para vencer o Brasil.

Mais cedo ou mais tarde, a crise política terá seu desfecho e, seja qual for ele, dela surgirá, obrigatoriamente, uma nova política econômica e uma nova coalizão para lhe dar sustentação e assim o demônio da estagflação e da indexação começará a ser exorcizado. Que assim seja, mas que seja breve, se possível no limiar de 2016.

                                          A ECONOMIA COM DILMA OU TEMER

O jogo está jogado na área econômica. Se o impeachment não passar e a Presidente Dilma sair vitoriosa da contenda, a política econômica do Ministro Joaquim Levy sairá fortalecida, o Presidente da Câmara, Eduardo Cunha, será defenestrado e,  com o apoio arregimentado no Congresso para barrar o impeachment, Dilma poderá aprovar o que falta do ajuste fiscal.

A vantagem aí é que metade do trabalho já foi feito, a desvantagem, além do fato da Presidente fortalecida querer dar mais pitacos na economia, é que virá mais da mesma política, o que significa aperto ainda maior em 2016, para que seja possível sonhar com crescimento em 2017.

Se o impeachment passar e o vice-presidente assumir o poder haverá uma nova política econômica de coalização, onde o senador José Serra, do PMDB, que hoje se articula com o partido como se dele já fizesse parte, certamente terá forte influência, embora a possibilidade de Henrique Meirelles assumir o Ministério da Fazenda também venha sendo comentada.

A vantagem aí é que Serra é um economista híbrido, misto de ortodoxo e desenvolvimentista, o que significa que sua política será menos recessiva, a desvantagem é que o senador tem planos políticos nítidos e pensa ser o Fernando Henrique de Temer. FHC fez do Ministério da Fazenda e do Plano Real a mola que o impulsionou à presidência. Já se Meirelles for o escolhido, teremos finalmente um poderoso chefão no Ministério da Fazenda. Detesto futurologia e não sei o que vai acontecer, mas, seja o que for, que seja logo, senão a economia brasileira não aguenta.

                                             SALVADOR, A BAHIA E A ECONOMIA

Tanto a economia baiana quanto a economia soteropolitana estão a merecer mais atenção dos poderes públicos. E não falo da conjuntura, que está ruim para todo mundo, falo da estrutura. A estrutura diz que a Bahia está se desindustrializando e sua indústria de transformação, que representava 16% do PIB em 2005, hoje representa apenas 10% do PIB e que a economia baiana, que era a sexta maior do país, caiu para sétimo lugar, sendo superada por Santa Catarina.

Diz também que a famigerada política de interiorização do desenvolvimento deu certo, mas teve como efeito colateral a perda de dinamismo da economia soteropolitana. O PIB de  Salvador apresentou uma queda no PIB de -0,3%, entre 2012 e 2013, enquanto,  no mesmo período o PIB  de Recife cresceu 7,12% e o de Fortaleza cresceu 4,5%, segundo compilação, baseada em dados do IBGE,  feita pela organização Endeavor para compor o Índice de Cidades Empreendedoras.

O PIB de Salvador já não é o maior do Nordeste e atinge o montante de R$ 39,8 bilhões, inferior ao de Fortaleza, que atinge R$ 43,4 bilhões, mas ainda superior ao de Recife da ordem de R$ 36,7 bilhões. Passada a crise, Estado e Prefeitura precisam voltar seus olhos para a economia da Bahia e de Salvador.

                                                     ADRADECENDO

Escritor não ganha dinheiro vendendo livro, afinal 50% do preço de capa vai para a editora, 40% para a livraria e apenas 10% fica com o autor, mas dá uma satisfação danada atingir a marca de quase 200 livros vendidos apenas no período de lançamento. Por isso, agradeço aos leitores que me deram o prazer de estar presentes no lançamento do meu livro Dia de Lavar a Roupa dos Mendigos.

Fonte: bahiaeconomica
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