sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Entre picuinhas e conspirações, por Raul Monteiro

Foto: Reprodução/Metropress

A mão forte na gestão, em especial o controle fiscal, que tem diferenciado a Bahia de praticamente todos os outros Estados e em especial do Rio de Janeiro, cujos confrontos de ontem só confirmam a gravidade da crise em que se encontra, é hoje o maior trunfo do governador Rui Costa (PT) para manter a base unida em torno do seu virtual projeto de reeleição. Estivesse atrasando o salário de servidores ou mesmo o pagamento generalizado de fornecedores, como o Estado carioca, o quadro para Rui seria outro, de dificuldades muito maiores para manter seu grupo coeso, ainda mais num cenário de indefinição sobre a candidatura presidencial de Lula para puxá-lo em 2018.
A lealdade à ex-presidente Dilma Rousseff (PT) levou o governador a fazer uma operação arriscadíssima do ponto de vista político. A articulação que promoveu para dar os votos da bancada baiana dos partidos de sua base contra o impeachment da petista cobra agora seu preço. Sem atentar para a tradição governista baiana, aquela em que a maioria dos partidos e lideranças locais age na base do “hay gobierno, soy a favor”, o governador alinhou todos os deputados aliados no sentido de votar contra a ascensão do peemedebista Michel Temer, o que alguns fizeram com quase manifesta contrariedade.
Para completar, por fidelidade partidária ou compromisso ideológico, carimbou a mesma exigência para seus aliados no Senado, quando Dilma já estava morta e enterrada, ampliando a indignação, ainda que velada, de determinados setores da base. O resultado é que, consolidada a chegada de Temer à Presidência, partidos que hoje estão com Rui Costa no Estado, são fundamentais à governabilidade da coalizão estadual e ao seu projeto de reeleição, a exemplo do PP, do PR e do PSD, aproveitando-se da boa relação de suas representações nacionais com o novo governo, passaram a negociar diretamente com a articulação política do peemedebista uma aproximação.
Assim, driblaram a liderança do governador, que, com declarações e posturas subsequentes de resistência ao “governo golpista” de Michel Temer, acabou praticamente abrindo mão de uma interlocução, mesmo que neutra, com o governo federal, entregando este papel exclusivamente a dois de seus maiores adversários no Estado, Geddel Vieira Lima, que integra a administração federal na condição privilegiadíssima de ministro das Relações Institucionais, e o prefeito ACM Neto (DEM), que já se articula para concorrer contra Rui Costa em 2018. Não é o que está à vista, entretanto, o que deve preocupar o governador.
Por si só, o entendimento dos partidos de sua base com o governo Michel Temer está longe de representar qualquer afronta, por exemplo, à sua autoridade. O problema é que sob o biombo das conversações com o governo federal abre-se espaço para que os aliados façam desde simples conjecturas – que vão da situação atual do governo estadual ao futuro – a até conspirações abertas contra sua reeleição. Rui poderia evitar dar ainda mais gás aos adversários com atitudes como a de homenagear a correligionária Dilma Rousseff em placas de inauguração de obras com recursos federais no Estado, o que já foi chamado publicamente por Geddel de “picuinha”.
* Artigo publicado originalmente no jornal Tribuna da Bahia.
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