quarta-feira, 31 de maio de 2017

Sento Sé: Na ‘Serra Pelada da Bahia’, só a água é tão cobiçada quanto as ametistas

Na mina já apelidada de Serra Pelada da Bahia, só um artigo é tão cobiçado quanto as ametistas: água. Sem fonte para consumo humano em um raio de aproximadamente dez quilômetros, os garimpeiros têm de recorrer a fornecedores que impõem preços bem acima da média.
Nos acampamentos, donos de carros-pipas cobram, em geral, R$ 5 por um galão com cinco litros, cuja qualidade inspira cuidados no uso. Nos pequenos comércios improvisados nas bases do garimpo, a garrafinha com meio litro de água mineral é vendida por, no mínimo, R$ 3.
O valor dobra quando a compra é feita no alto da mina, onde são frequentes os leilões. Em um deles, presenciado pela reportagem, um vasilhame com 20 litros de água mineral foi arrematado por R$ 80, após intensa disputa entre compradores. O mesmo produto custa, no máximo, R$ 15 em Sento Sé.
Para quem não conseguiu ganhar dinheiro com a pedra, a corrida pela água se dá em condições subumanas. No acampamento que serve de acesso para a face menos acidentada da serra, garimpeiros recorrem a dois poços localizados na área de uma barragem desativada.
Com a água lamacenta ou esverdeada, cozinham, lavam as roupas e o corpo, algo considerado quase um luxo para os trabalhadores que fixaram moradia na mina. Em volta dos buracos, é comum ficar uma semana sem banho. O que sobra nos baldes, quando muito, dá apenas para se limpar após as necessidades fisiológicas, feitas em áreas batizadas de “cagadouros”.
Há ainda quem use os poços para matar a sede, ignorando o alto risco de contrair infecções provocadas pela contaminação da água. “Vi muita gente aqui reclamando de febre, dor de barriga e coceiras depois de beber ou tomar banho lá”, conta Marcelo Correia de Alcântara, fabricante de picolé em Jussara, que montou uma tenda na entrada do garimpo para vender, basicamente, feijão, arroz, açúcar, café, farinha de milho, rapadura, água mineral e cachaça, largamente consumida na Quixaba, onde é batizada de “gás”.
Na escassez hídrica da caatinga, os garimpeiros vivem a expectativa de que a prefeitura de Sento Sé ou órgãos governamentais os ajudem a minimizar a carência de água. Sabem que, do céu, não cairá uma gota por longo tempo. Basta olhar a vegetação em volta. Mandacaru sem flor no pé da serra é um sinal da chuva longe do sertão.
Correios/sentosenoticias
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