sábado, 24 de março de 2018

Guerra do Pau-de-Colher em Casa Nova: 80 anos

Em fevereiro deste ano de 2018, completaram 80 anos em que foi realizada uma guerra entre sertanejos do município de Casa Nova, no Norte da Bahia, e forças militares dos Estados do Piauí, Pernambuco e pelotões baianos. Apesar do grande contingente de policias militares e civis dos três Estados do Nordeste, os sertanejos do Povoado de Pau-de-Colher resistiram bravamente com seus cacetes, enxadas, facões e foices contra as metralhadoras, fuzis e canhões das 3 forças militares. No início da guerra foram três dias e três noites de combate, em que os sertanejos não se intimidavam com a artilharia pesada, e investiam contra os soldados, abatendo-os a cortes de facão e foices, tomando suas armas como troféus de guerra.
Nessa batalha armada que durou cerca de 2 meses, foram dizimados e presos centenas de lavradores que enfrentaram as forças policiais com cacetes, por isso mesmo ficou conhecido como “guerra dos caceteiros”. Essa guerra não está registrada nos anais da história do Brasil,mas podemos assegurar que foi uma repetição da “Guerra de Canudos”, que havia sido deflagrada 40 anos antes de “Pau-de-Colher”.
Pau-de-Colher é uma comunidade distante 96 quilômetros da sede municipal de Casa Nova, cidade baiana que está situada na borda do lago do Sobradinho. Ali, por volta de 1934, chega à região o beato José Severino Tavares, que atendia por “Senhorinho”, oriundo do Ceará, dizendo-se enviado do Padre Cícero. Ele iniciou o movimento religioso, formando como líderes “Zé Lourenço”, José Camilo, João Baraúna e José da Clara, os quais passaram a usar roupas pretas como luto pelo padre Cícero e pelas vítimas da Guerra de Canudos, que havia sido registrada há 4 décadas. “Senhorinho” e seus seguidores começaram a reunir a comunidade de Pau-de-Colher em 1937, e sempre frisavam sobre a tragédia de Canudos, apontando como responsável o político Luiz Viana, que era filho ilustre de Casa Nova, que na época da Guerra de Canudos era o governador da Bahia. Essa atitude dos religiosos despertou nos seus seguidores o ódio contra as lideranças políticas do referido Município.
Como tudo começou
Até os últimos dias de dezembro de 1937, os fanáticos de Pau-de-Colher viviam pacificamente; então, dia 4 de janeiro de 1938, um grupo de elementos fanatizados resolveu matar os agricultores José da Barra, Rubens Rodrigues e José Honório, os quais haviam se recusado a participarem da prática de treinamento dos cacetes, cujo objetivo era adestrá-los para enfrentar eventualmente as autoridades políticas que governavam o município de Casa Nova. Os referidos homens foram moídos a cacete, retalhados a facão juntamente com seus filhos e mulheres, tendo suas vísceras penduradas nas árvores e suas línguas pregadas nos portais de suas casas, para servir de exemplo para os demais da comunidade que recusavam obedece-los.
Quatro dias depois, em 8 de janeiro de 1938, os fanáticos seguidores de José Senhorinho, bem treinados no manejo dos cacetes, atacaram furiosamente a fazendo Olho D’Água, de propriedade de Janjão, matando 14 pessoas dentre elas 2 crianças. Ao tomar conhecimento das mortes através de um vaqueiro da referida fazenda, que fugiu, dia 10 de janeiro, um grupo de civis e militares, chefiado pelo sargento Geraldo, atacou os fanáticos de Pau-de-Colher, no seu reduto, morrendo o cabo PM Vieirinha, natural de Senhor do Bonfim, além de um soldado e cinco civis.
Dia 14 de janeiro, os fanáticos voltaram a atacar outra fazenda, a Fazenda da Lagoinha, ceifando muitas vidas. No dia seguinte chega à localidade de Pau-de-Colher uma força policial do Estado do Piauí composta de 50 homens, os quais bateram em retirada deixando após vários soldados mortos e feridos. A exemplo de Canudos os fanáticos se apossaram das armas dos militares abatidos, as quais serviram para enfrentar as forças militares que atacavam o arraial.
Início da batalha
Passados quatro dias, ou seja, 19 de janeiro, cerca de 100 soldados pernambucanos sob o comando do capitão PM Optato Gueiros, travaram batalha com os sertanejos caceteiros durante 3 dias e 3 noites de fogo cerrado. Quando o pelotão de fuzilaria recuava ante a bravura dos sertanejos baianos, chega ao local, para reforçar a artilharia, um esquadrão motorizado da capital baiana, munido de canhões e metralhadoras de tripé sob o comando do capitão PM Maurino Cezimba Tavares, além de uma companhia de fuzileiros chefiada pelo tenente PM Zacarias Justiniano dos Santos.
Considerando as perdas de soldados nessa batalha desigual, o capitão PM Maurino Tavares, comandante do Esquadrão Motorizado, oriundo de Salvador, responsabilizou as autoridades civis de Casa Nova pela deflagração da batalha e resolveu prender o prefeito do Município, Raimundo Santos, o líder político Antônio Honorato, e o delegado de polícia Antunes Bacelar, encaminhando-os a Salvador, onde ficaram detidos. As prisões foram efetuadas em 21 de janeiro de 1938, e em lugar do prefeito Raimundo Santos, o capitão Maurino deu posse ao tenente Zacarias como prefeito de Casa Nova.
A batalha sangrenta continuou como também continuou a chegar esquadrões de Pernambuco e Piauí para dar cabo aos valentes sertanejos de Pau-de-Colher, os quais se refugiavam em valas e túneis subterrâneos escavados para esse fim. Houve muito derramamento de sangue e, em razão do grande número de feridos que eram conduzidos a Casa Nova para receberem socorro de urgência, a Prefeitura Municipal local nomeou o médico Raimundo Estrela, para atender os feridos pela guerra. Mais tarde, em 4 de julho do mesmo ano, quando tudo havia terminado, o médico Raimundo Estrela foi nomeado prefeito de Casa Nova pelo interventor Landulfo Alves.
Em 1984, ou seja, 46 anos depois do desfecho sangrento, estive na localidade de Pau de Colher fazendo cobertura da seca para o jornal “A Tarde”, quando repórter do mesmo, e ainda pude ver vestígios das escavações feitas pelos fanáticos durante a guerra, para se protegerem das forças militares.
O fim da guerra
Estrategicamente, os guerrilheiros de Pau-de-Colher eram divididos em grupos organizados, cada um tendo um líder, destacando entre eles José Vicente, que foi preso em 8 de fevereiro, e José Camilo, que foi aprisionado com seu grupo, quatro dias depois. E assim foi aos poucos sendo dominado o reduto de José Senhorinho pelas forças policiais. Mas, para isso foi necessário grande contingente de soldados experientes em guerra. Finalmente, os agricultores foram executados, e seus filhos foram recolhidos e conduzidos até oporto de Juazeiro pelo vapor Sertanejo, dentro dos seus porões; e do porto de Juazeiro conduzidos até Salvador, onde foram internados em instituições de amparo as crianças. Essas crianças foram adotadas por famílias ricas da capital, sendo, mais tarde, formadas em juízes, promotores, médicos e advogados, vivendo no anonimato de suas origens.
Rezadeira poderosa
Fato interessante aconteceu na época. Um dos sobreviventes da guerra que exerce atualmente o cargo de promotor de justiça, em Salvador, filho de pais que morreram na guerra, relatou-me que “no povoado de Pau-de-Colher existia uma rezadeira poderosa conhecida como dona Joana; era cega e surda de nascença, mas poderosa em sua reza. A rezadeira era temida por todos, e enquanto viva os sertanejos ganhavam todas as batalhas, isto por conta da confiança em suas rezas. Somente depois da morte da rezadeira começou a haver prisões dos líderes do grupo acuado”. Contou, também, que “a rezadeira teve sua casa invadida, e neste momento ela estava tecendo com birros, e os soldados começaram a disparar contra a indefesa velha; as balas disparadas pelas armas dos militares contra ela não faziam-lhe qualquer mal. Diziam que ela tinha o corpo fechado”.
Com o contato dos projéteis em seu corpo, simplesmente a rezadeira exclamava: “sai pra lá besouro”, e batia com a mão no local onde era atingido. Vendo que a velha rezadeira não morria em consequência dos disparos, os policiais resolveram matá-la a cacetadas, deixando seu corpo totalmente moído pelas pauladas, pois o cacete foi a única arma que a abateu. “Com a notícia da sua morte, o bando de sertanejos enfraqueceu, sendo todos os seguidores de “Senhorinho” mortos barbaramente, depois de dominados pelas forças policiais que, em represália, promoveram um verdadeiro fuzilamento dos homens já dominados e desarmados”. Foi um verdadeiro massacre desnecessário!
Fonte: www.naturopatawilsondias.com/remansonews
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