“A Bahia não é resistência; a Bahia é símbolo do atraso”

Por: Bernardo Guimarães Ribeiro
O filósofo da baianidade, o grande governador Otávio Mangabeira, gostava de dizer que “a Bahia está tão atrasada que, quando o mundo se acabar, os baianos só vão saber cinco anos depois”. Mangabeira estava correto, só errou no cálculo. A Bahia está muito mais que cinco anos atrasada. A explicação? A expressiva votação com mais de 75% no atual governador e de mais de 60% no candidato derrotado à Presidência da República, ambos do Partido dos Trabalhadores, dá conta de que os influxos da ruptura ainda não nos atingiram. Expliquemo-nos:
No plano nacional, a Bahia, juntamente com o Piauí e Maranhão, foram os Estados que registraram maior percentual de votos em Haddad, todos acima dos 60% (https://www.brasil247.com/pt/247/piaui247/371512/Piau%C3%AD-foi-o-estado-que-mais-votou-em-Fernando-Haddad.htm). Bastou esse fato para que esquerdistas, em geral, e petistas entoassem o mantra da resistência. A retórica não poderia ser mais tola – são simplesmente três dos Estados MAIS pobres da Federação, ocupando, os três, as seis últimas posições do índice de desenvolvimento humano – IDH (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_unidades_federativas_do_Brasil_por_IDH). Ademais, Maranhão e Piauí são também as unidades onde a relação entre pessoas que dependem do bolsa-família em comparação à população total é maior, respectivamente 48 e 39% (https://bolsafamilia.blog.br/noticias/estados-que-mais-recebem-dinheiro-para-o-bolsa-familia/), enquanto a Bahia, por seu turno, é o Estado com o maior número de beneficiários e maior aporte de recursos em termos absolutos (https://www.simoesfilhoonline.com.br/bolsa-familia-bahia-e-o-estado-que-recebera-o-maior-montante-do-beneficio-neste-mes/).
Retomando o foco no Estado da Bahia, um erro de avaliação muito frequente no mundo das estatísticas é tomar o efeito pela causa. Enquanto a ampliação de programas de transferência de renda deveria ser interpretada como sintoma de atraso e subdesenvolvimento, curiosamente, em terrae brasilis, é compreendido como o contrário. Logo, a maior dependência de uma população a benefícios governamentais, ao reverso do que propõe a esquerda, apenas expõe a incompetência dos gestores em modificar o panorama socioeconômico.
No caso da Bahia, em especial, a contradição ganha contornos de esquizofrenia na medida em que diversos outros dados logram demonstrar a queda vertiginosa do Estado em índices oficiais comparativos. Em relação à Segurança Pública, temos nada menos que cinco das dez cidades mais violentas do País (https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/cinco-das-dez-cidades-mais-violentas-do-pais-estao-na-bahia-aponta-estudo.ghtml); na Educação, outro importante parâmetro de IDH, estamos na rabeira, tendo alcançado o inacreditável penúltimo lugar na última avaliação do MEC (https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2018/08/31/bahia-tem-2o-pior-resultado-do-pais-em-avaliacao-da-educacao-basica-feita-pelo-mec.ghtml); no Turismo, histórico setor produtivo e arrecadador, nosso desempenho vem minguando ano a ano a olhos vistos, com o fechamento de um sem-número de hotéis tradicionais, diminuição de voos, culminando com a ruína do único centro de convenções do Estado no ano de 2016. A situação é tão vexatória, que se registrou em 2018 a Bahia como o Estado de pior desempenho no setor no Brasil (http://bahiaeconomica.com.br/wp/2018/07/13/servicos-do-turismo-na-bahia-caem-82-em-maio-e-tem-o-pior-resultado-do-pais/); e, por fim, a saúde está na UTI. Dos 28 estados, segundo a análise de alguns dados, a Bahia ocupa a 22ª posição, sendo sucedida por nada menos que Piauí (24º) e Maranhão (28º). Há quem veja mera coincidência, mas não é (https://exame.abril.com.br/brasil/os-melhores-e-os-piores-estados-em-indicadores-de-saude/).
Comecei com ele e terminarei rememorando o saudoso Otávio Mangabeira em mais uma passagem: “pense num absurdo: na Bahia tem precedentes”! Pessoas letradas e bem formadas fazem desse cenário tenebroso a construção de um arquétipo completamente irreal e delirante, tratando a Bahia como um modelo de resistência frente ao novo Brasil que desponta. Não há resistência, mas teimosia e histeria, reflexo de personalidades mimadas, que apenas aceitam as regras do jogo quando estão vencendo, além de manipuladoras, por proclamarem uma autoridade moral pela visão de mundo que defendem. Infelizmente, 12 anos de petismo na Bahia conduziram as pessoas à completa perda do referencial. Doze anos formaram uma geração inteira de jovens percebendo o caos social como algo natural e trivial. E, diante de tantas incertezas, o bolsa-família é a única certeza de muitos de que algo pior não irá acontecer. A quem interessa a mudança quando a “resistência” escolhe um lado? A Bahia não é resistência; a Bahia é símbolo do atraso.”
Texto de Bernardo Guimarães Ribeiro
Fonte: acaopooular

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